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Ciência

Arca de Noé encontrada? Broca quebra na Turquia e escavação reacende mistério milenar

Broca quebra em nova perfuração na formação de Durupınar, na Turquia, e reacende a busca pela Arca de Noé. Veja o que já foi realmente comprovado.

Arca de Noé encontrada? Broca quebra na Turquia e escavação reacende mistério milenar

Você provavelmente já cruzou com alguma manchete dizendo que a Arca de Noé foi encontrada na Turquia — ou que os pesquisadores estão a poucos passos de provar isso. A história voltou com força porque uma nova campanha de perfuração começou na famosa formação de Durupınar e, em um dos furos, uma broca quebrou ao atingir uma camada extremamente dura a cerca de 5 metros de profundidade.

A equipe responsável levantou uma hipótese capaz de incendiar a internet: o material poderia ser madeira petrificada. Parece enorme. Só tem um detalhe que quase sempre some das manchetes: esse mesmo lugar já foi perfurado décadas atrás — e naquela faixa de profundidade pesquisadores encontraram rocha.

O que aconteceu agora na Turquia?

Em 23 de setembro de 2026, a organização americana Noah’s Ark Scans anunciou que uma equipe internacional havia iniciado perfurações profundas na formação de Durupınar, no leste da Turquia, perto da região do Monte Ararat.

Segundo o comunicado da própria organização, foram coletadas amostras em profundidades de até 18 metros. A equipe relata ter encontrado material orgânico, sedimentos e cavidades no subsolo. Em um dos pontos, entre aproximadamente 4 e 5 metros, a broca teria atingido uma camada descrita como “mais dura que calcário” e acabou quebrando.

Foi daí que surgiu a expressão que correu o mundo: “possível camada de madeira petrificada”.

Mas é importante colocar a informação no lugar certo. Até agora, isso é uma hipótese levantada pela própria equipe responsável pela pesquisa. Não existe, neste momento, resultado laboratorial publicado confirmando que o material seja madeira — petrificada ou não.

A investigação é oficial, mas a conclusão ainda não existe

Isso não significa que o trabalho seja uma aventura clandestina. A Universidade Sivas Cumhuriyet informa que o projeto é liderado pelo arqueólogo Prof. Dr. Cenker Atila e recebeu autorização de órgãos do governo turco. Cerca de 20 pesquisadores e estudantes de cinco países participam do trabalho.

O projeto usa radar de penetração no solo, tomografia de resistividade elétrica, levantamentos 3D, coleta de solo e perfuração para retirada de testemunhos do subsolo. A própria universidade diz que as amostras serão analisadas em laboratório e que os resultados mais amplos devem ser apresentados à comunidade científica.

Ou seja: há pesquisa real acontecendo. O que ainda não há é a confirmação de que Durupınar seja a Arca de Noé.

E por que esse lugar chama tanta atenção?

Porque, olhando de cima, a formação realmente é impressionante. Durupınar tem um contorno alongado que lembra um grande casco ou uma embarcação enterrada na paisagem.

A estrutura possui cerca de 157 metros de comprimento. Isso chama atenção porque Gênesis descreve a Arca com 300 côvados. Dependendo de qual medida histórica de côvado é usada na conversão, o comprimento pode ficar relativamente próximo da formação turca.

Mas a comparação não fecha perfeitamente. A largura de Durupınar, por exemplo, é bem maior do que a proporção indicada no texto bíblico. E há ainda outro ponto: muitos estudiosos interpretam a Arca descrita em Gênesis mais como uma enorme estrutura retangular de flutuação do que como um navio com formato tradicional.

O detalhe que muda a história: esse local já foi perfurado

A formação não apareceu ontem. Ela ganhou notoriedade em 1959, quando foi identificada em fotografias aéreas pelo capitão turco İlhan Durupınar — de quem veio o nome do local.

Nas décadas seguintes, expedições voltaram repetidamente à região. Nos anos 1980, pesquisadores usaram magnetômetros, sismógrafos e radar de penetração no solo. O radar detectou uma superfície relativamente plana alguns metros abaixo do terreno, algo que na época chegou a alimentar a possibilidade de uma grande estrutura enterrada.

Então veio o teste que realmente importava: perfurar.

Em 1988, foram realizados furos na formação. Em parte deles, por volta de 5 metros de profundidade, foram encontradas camadas de rocha. Não apareceu madeira petrificada, tábuas, compartimentos ou qualquer estrutura de construção humana.

Anos depois, um trabalho publicado no Journal of Geoscience Education, assinado pelo geólogo Lorence Collins e por David Fasold — que antes havia defendido a hipótese da Arca — concluiu que Durupınar era uma estrutura geológica natural. Materiais apontados anteriormente como possíveis partes metálicas ou madeira fossilizada foram interpretados como minerais e rochas naturais.

Então por que a broca quebrada virou notícia mundial?

Porque é uma imagem perfeita para uma manchete.

Uma broca desce exatamente no local que milhões de pessoas associam à Arca de Noé, encontra algo muito duro e quebra. A equipe diz que vai testar se aquilo pode ser madeira petrificada. Pronto: em poucos minutos, a frase “podem ter encontrado a Arca” já está circulando em vídeos, shorts e redes sociais.

Mas uma broca quebrar não identifica o material que a quebrou.

Pode ser madeira petrificada? É uma hipótese que os testes podem investigar. Só que também pode ser simplesmente uma camada de rocha — e existe um motivo concreto para considerar essa alternativa: perfurações anteriores já encontraram rocha praticamente nessa profundidade.

É justamente por isso que as próximas análises laboratoriais são muito mais importantes do que a manchete.

E o suposto túnel de 70 metros?

Outro elemento que apareceu bastante nas redes é a afirmação de que haveria um grande túnel ou corredor dentro da formação, além de espaços que poderiam lembrar diferentes níveis da Arca.

Essa história é bem mais frágil do que parece. Segundo o material que vem sendo divulgado, parte dessa interpretação surgiu de reanálises de dados de radar. Reflexos de radar podem mostrar mudanças no subsolo, cavidades, interfaces entre materiais e outras anomalias — mas o radar sozinho não transforma uma anomalia em corredor construído pelo homem.

Para saber o que existe ali, é necessário cruzar os dados com perfurações, imagens, amostras e análises independentes.

O ponto mais interessante talvez seja justamente o teste

Há algo positivo nessa nova etapa: desta vez, a hipótese está sendo submetida a novos testes físicos.

Se as amostras mostrarem madeira antiga, estruturas artificiais ou qualquer material incompatível com uma formação geológica natural, isso será extraordinário e certamente merecerá investigação muito maior.

Se mostrarem rocha, argila, minerais e processos naturais, a hipótese também terá recebido uma resposta.

É assim que a investigação séria funciona: uma hipótese precisa aceitar a possibilidade de estar errada.

A Arca de Noé foi encontrada?

Até agora, não.

O que existe é uma nova campanha científica em Durupınar, uma formação que chama atenção pelo formato e que há décadas é associada por alguns pesquisadores e grupos religiosos à narrativa bíblica.

A nova equipe encontrou material orgânico, cavidades e uma camada dura que quebrou uma broca. A possibilidade de madeira petrificada será testada. Ao mesmo tempo, investigações anteriores já encontraram rocha no local e estudos geológicos publicados classificaram a formação como natural.

Portanto, a notícia correta hoje não é “a Arca de Noé foi descoberta”. A notícia é: uma nova investigação voltou a testar um dos locais mais famosos do mundo ligados à busca pela Arca — e agora precisamos esperar o que as amostras realmente vão mostrar.

Se vier uma descoberta extraordinária, ela terá de sobreviver a algo bem menos emocionante que um vídeo viral: laboratório, publicação, crítica de outros especialistas e reprodução dos resultados.

Leia também: A história de Noé e a maldição de Canaã na perspectiva arqueológica.

Fontes: Sivas Cumhuriyet University; Noah’s Ark Scans; Journal of Geoscience Education; informações históricas e documentais reunidas na transcrição analisada pelo X24. Imagem de destaque: ilustração do acervo do X24.

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