O impacto dos obesógenos no ganho de peso

Ao ouvir as palavras 'obesidade' e 'sobrepeso', automaticamente tendemos a pensar na má alimentação e no sedentarismo. Contudo, existe um

Publicado 29/09/2023 às 21:27 por Alex Torres

Nos √ļltimos anos, estudos v√™m apontando que certos compostos qu√≠micos presentes no ambiente podem desempenhar um papel no desenvolvimento de sobrepeso ou obesidade na popula√ß√£o. Esses compostos, conhecidos como obesog√™nicos, promovem um aumento da massa do tecido adiposo branco ou da massa gorda apenas por meio da exposi√ß√£o a eles atrav√©s da ingest√£o (dieta), do contato ou da inala√ß√£o de ar contaminado.

Atualmente, cerca de 50 produtos qu√≠micos foram categorizados como obesog√™nicos ou potenciais obesog√™nicos. Entre eles est√£o componentes populares como bisfenol A, bifenilos policlorados, ftalatos, √©teres de polibromodifenilos, subst√Ęncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas, parabenos, acrilamida, alquilfen√≥is, dibutilestanho e alguns metais pesados, como c√°dmio e ars√™nio. Eles fazem parte integrante de muitos produtos que usamos diariamente (detergentes, alimentos, embalagens de pl√°stico, roupas, cosm√©ticos etc.), o que complica a evas√£o de seus efeitos.

Altera√ß√Ķes no tecido adiposo, horm√īnios e microbiota

Essas subst√Ęncias n√£o causam obesidade por si s√≥, mas promovem o excesso de peso por meio de diferentes mecanismos. Por exemplo, favorecem a prolifera√ß√£o e a diferencia√ß√£o de adip√≥citos, ou seja, aumentam o n√ļmero e o tamanho das c√©lulas respons√°veis pelo ac√ļmulo de gordura. Esse aumento no tecido adiposo branco pode contribuir para a obesidade e doen√ßas metab√≥licas relacionadas por meio de rea√ß√Ķes inflamat√≥rias e de estresse oxidativo, que, por sua vez, podem levar ao ac√ļmulo de glicose e √°cidos graxos em diversos √≥rg√£os, especialmente no f√≠gado.

Observou-se ainda que a exposi√ß√£o a subst√Ęncias obesog√™nicas pode alterar a a√ß√£o de horm√īnios, como os sexuais e os da tireoide, relacionados √† diferencia√ß√£o das c√©lulas adiposas, ao ganho de peso e ao metabolismo.

A microbiota intestinal tamb√©m pode ser afetada pela a√ß√£o desses compostos. Estamos falando de milh√Ķes de bact√©rias que regulam a absor√ß√£o de lip√≠dios, entre outras fun√ß√Ķes; portanto, seu dano pode causar doen√ßas metab√≥licas como diabetes tipo 2 ou obesidade.

O efeito dos obesogênicos mesmo antes de nascer

Os potenciais efeitos dos obesog√™nicos variam de acordo com o momento da exposi√ß√£o. As fases mais vulner√°veis s√£o as iniciais da vida: a etapa fetal e a primeira inf√Ęncia, quando o desenvolvimento √© muito r√°pido e coordenado. Portanto, a altera√ß√£o desse processo sens√≠vel pode ter um impacto em nossa sa√ļde a longo prazo.

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Essa √© a explica√ß√£o da Hip√≥tese dos Or√≠genes da Sa√ļde e da Doen√ßa no Desenvolvimento (ou hip√≥tese DOHaD). Segundo essa teoria, o ambiente que envolve uma pessoa durante seu desenvolvimento inicial pode provocar mudan√ßas fisiol√≥gicas que a tornam mais vulner√°vel a determinadas doen√ßas ao longo da vida. Tais modifica√ß√Ķes podem persistir mesmo quando o ‚Äúestressor‚ÄĚ j√° n√£o est√° presente.

Isso √© poss√≠vel no caso da obesidade? A evid√™ncia cient√≠fica aponta que sim. A exposi√ß√£o a esses t√≥xicos em momentos cr√≠ticos do desenvolvimento √© capaz de promover mudan√ßas epigen√©ticas, ou seja, modifica√ß√Ķes no DNA que n√£o afetam sua sequ√™ncia. Isso pode alterar a express√£o dos genes e, consequentemente, as fun√ß√Ķes das c√©lulas, o que aumenta a suscetibilidade de desenvolver obesidade e outras doen√ßas metab√≥licas.

Al√©m disso, em estudos com animais, observou-se que essas modifica√ß√Ķes podem ser transmitidas para as gera√ß√Ķes futuras. Em outras palavras, as mudan√ßas s√£o ‚Äúherdadas‚ÄĚ de pais para filhos.

Estratégias individuais e coletivas para evitá-los

Conhecendo tudo isso, o que podemos fazer para evitar a exposição aos obesogênicos? Apesar de convivermos com eles em nosso dia a dia, algumas práticas individuais podem nos ajudar a contorná-los. Aqui estão algumas dicas:

  • N√£o fumar.
  • Diminuir o consumo de alimentos e bebidas envasados.
  • Reduzir o uso de pl√°sticos, bem como de certos cosm√©ticos e lo√ß√Ķes.
  • Limitar o consumo de alimentos com pesticidas.
  • Reciclar e reutilizar tudo o que pudermos.

Por outro lado, as autoridades de sa√ļde p√ļblica e do meio ambiente devem desenvolver estrat√©gias pol√≠ticas para diminuir a exposi√ß√£o da popula√ß√£o a essas subst√Ęncias, tamb√©m focando nas desigualdades sociais em sa√ļde.

Al√©m disso, √© necess√°rio continuar pesquisando sobre os efeitos dos obesog√™nicos. Com mais conhecimento, poderemos tomar decis√Ķes que afetar√£o a todos n√≥s, os que est√£o aqui e os que vir√£o.

Diagnóstico e tratamento

Atualmente, o diagn√≥stico dos efeitos de subst√Ęncias obesog√™nicas ainda est√° em um est√°gio inicial. Contudo, novas tecnologias e m√©todos de pesquisa est√£o sendo desenvolvidos para identificar com mais precis√£o como esses compostos agem no organismo. Quando identificados em exames, m√©todos de tratamento envolvendo mudan√ßas na dieta, no estilo de vida e, em alguns casos, uso de medicamentos espec√≠ficos podem ser adotados para mitigar seus efeitos.

M√©dicos e pesquisadores est√£o trabalhando em terapias que possam reverter ou minimizar as altera√ß√Ķes hormonais e metab√≥licas causadas por essas subst√Ęncias. Por exemplo, alguns estudos est√£o explorando o uso de probi√≥ticos para restaurar uma microbiota intestinal saud√°vel ap√≥s exposi√ß√£o a obesog√™nicos. No entanto, mais pesquisas s√£o necess√°rias para validar essas abordagens.

Fonte: The Conversation

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