Violência digital de gênero. Uma realidade invisível. Como se proteger?

Um relatório da Federação de Mulheres Jovens Apps sem Violência revela que quase 58% das mulheres sentiram-se pressionadas a ter relações sexuais com homens que conheceram através do Tinder.

Publicado 29/08/2023 às 17:32 por Alex Torres

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Essas não são as únicas estatísticas alarmantes. De acordo com o relatório “Violência digital de gênero: uma realidade invisível”, do Observatório Nacional de Tecnologia e Sociedade, quase 18,4% das mulheres afirmamMar ter sofrido assédio sexual na internet. Além disso, mais de 25% das mulheres entre 16 e 25 anos receberam insinuações consideradas inadequadas através das redes sociais.

A violência machista na era digital

Os especialistas reiteram que, embora a violência machista na internet possa ser definida como violência machista geral com um componente digital, não é uma forma de violência de gênero diferente da que existia antes da internet. A questão agora é que existem canais que podem facilitar e agravar essa violência.

Este tema foi discutido em profundidade no podcast “Despacho 42: Violências digitais de gênero, unidades de igualdade… e o fediverso”, com a participação de especialistas em gênero e tecnologia.

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Maria Olivella, coordenadora da Unidade de Igualdade da Universitat Oberta de Catalunya (UOC), explica que: “O fenômeno é o mesmo, mas precisamos estudar como essas tecnologias influenciam na exacerbação, na continuidade e na sensação de multiplicidade gerada pela tecnologia, porque muitas pessoas podem estar te assediando ao mesmo tempo. Não podemos considerar que o ambiente digital é completamente separado da vida física; há uma continuidade entre os dois.

As especificidades da violência digital

No entanto, é verdade que existem tecnologias que geram problemas específicos. Segundo o Código Penal, um tipo de violência machista digital que se enquadra no descobrimento ou revelação de segredos é a apropriação de documentos ou interceptação de comunicações, a modificação de dados informáticos de caráter pessoal e a difusão sem permissão de imagens ou documentos audiovisuais. “No mundo físico já existia: roubar cartas, fotos, vídeos… Mas no mundo digital, há tecnologias que facilitam muito mais isso”, esclarece Olivella.

Matrix movie still

Outros tipos de crimes típicos de violências machistas digitais são os acessos e usos de sistemas informáticos sem o consentimento da usuária, através dos quais podem ser introduzidos trojans ou programas que copiam senhas nos dispositivos. Da mesma forma, apagar, danificar ou deteriorar dados informáticos e obstruir ou interromper o funcionamento de sistemas informáticos são delitos que podem ser considerados violência machista digital, dependendo dos casos. Ou ainda, falsificar documentos privados ou certificados, que o Código Penal classifica como falsidades informáticas.

Além disso, um mecanismo que está sendo usado com frequência na violência machista digital, segundo Maria Olivella, é o phishing, ou seja, uma fraude através de uma mensagem. “Ao clicar no site, eles entram no seu computador e podem roubar dados pessoais e pedir um resgate”, explica. A todos estes delitos somam-se os ciberdelitos sexuais, como qualquer assédio em redes ou o engano pedófilo (grooming em inglês): enganar uma pessoa menor de 16 anos e persuadi-la para um encontro sexual ou fornecer material pornográfico através dos meios digitais.

Quais podem ser as consequências da violência digital?

person with water on his face

No entanto, independentemente de o crime de violência machista ocorrer no mundo digital ou físico, pode trazer consequências graves. “Embora a violência machista digital tenha características muito específicas, é muito real e muito física, tanto suas consequências quanto o que está acontecendo”, aponta a coordenadora.

Uma pesquisa realizada pela Anistia Internacional e relatada no relatório da ONTS conclui que 55% das mulheres que sofreram assédio nas redes sociais declararam que eram menos capazes de se concentrar em suas atividades diárias, 54% experimentaram ataques de pânico, ansiedade ou estresse, 57% sentiram apreensão ao pensar em usar a Internet ou as redes sociais e 54% experimentaram essa sensação ao receber mensagens eletrônicas ou notificações de redes sociais.

Medidas de prevenção e apoio às vítimas

É fundamental que tanto as instituições públicas quanto as empresas privadas estabeleçam medidas de prevenção e de apoio às vítimas de violência digital de gênero. A implementação de políticas de segurança digital, treinamento de funcionários e criação de canais específicos para denúncias são etapas cruciais para combater esse tipo de violência. Além disso, muitas ONGs e associações feministas já estão trabalhando para fornecer recursos educativos e apoio emocional às vítimas, mas é preciso um esforço conjunto de toda a sociedade para erradicar esse problema.

A importância da educação digital

O enfrentamento da violência digital de gênero também passa pela educação. É necessário educar as novas gerações sobre o uso responsável e ético da tecnologia. Programas educacionais que incluam a temática de gênero e tecnologia podem contribuir para a formação de uma cultura digital mais igualitária e segura. Estes programas devem ser incorporados tanto em escolas quanto em ambientes de trabalho, visando à conscientização geral sobre a importância do respeito e da igualdade nos espaços digitais.

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