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Cinema

A mentira que ajudou a criar o mito de Van Damme — e o telefonema de US$ 20 milhões que ajudou a derrubá-lo

Jean-Claude Van Damme chegou ao topo com Bloodsport e Timecop. Depois vieram drogas, conflitos e um pedido de US$ 20 milhões por filme.

Montagem editorial ilustrativa sobre a ascensão e a queda de Jean-Claude Van Damme em Hollywood
Imagem ilustrativa produzida para esta reportagem.

Olha só: se você cresceu nos anos 80 ou 90, existe uma chance razoável de ter tentado abrir um espacate no chão de casa por culpa de Jean-Claude Van Damme. E talvez tenha descoberto, da pior maneira possível, que o corpo humano não vem de fábrica com a mesma configuração do belga.

Van Damme era aquilo que a Sessão da Tarde precisava: chute giratório, cara de poucos amigos, uma quantidade irresponsável de óleo no corpo e, claro, o espacate. Só que a história por trás daquele sujeito que parecia ter saído de um videogame é muito mais estranha do que os filmes.

Porque o mesmo homem que chegou ao topo de Hollywood dormindo em carro, aceitando trabalho que aparecia e perseguindo produtores até conseguir uma oportunidade também ajudou a implodir a própria carreira quando já estava ganhando milhões.

E no meio disso tudo tem uma história vendida como verdadeira que ajudou a transformar O Grande Dragão Branco em fenômeno.

Antes de Hollywood, Van Damme tinha uma vida bem menos cinematográfica

A narrativa costuma ser contada como se Jean-Claude Van Damme tivesse chegado aos Estados Unidos absolutamente sem nada. Não é bem assim. Na Bélgica ele já treinava artes marciais, praticava musculação e tinha uma academia. Só que o sujeito queria uma coisa muito específica: virar astro de cinema.

Então ele vendeu o que tinha, foi para os Estados Unidos e descobriu uma verdade que Hollywood ensina rapidamente: querer ser estrela e conseguir trabalho são duas coisas completamente diferentes.

Ele passou por empregos comuns, viveu com pouco dinheiro e insistiu de uma maneira quase absurda atrás de oportunidades. Essa insistência acabou funcionando.

E quando O Grande Dragão Branco, de 1988, apareceu, meu amigo, o negócio mudou.

O filme que transformou Van Damme em fenômeno foi vendido como história real

Bloodsport, conhecido no Brasil como O Grande Dragão Branco, apresentava a história de Frank Dux, um artista marcial que dizia ter participado e vencido um torneio clandestino chamado Kumite.

O detalhe importante é este: o filme foi promovido como baseado em fatos reais.

Imagine o efeito disso em 1988. Não era só um filme sobre um sujeito entrando num torneio secreto e enfrentando lutadores do mundo inteiro. O público era levado a acreditar que aquilo tinha acontecido de verdade.

Só que, pouco depois do lançamento, o Los Angeles Times foi atrás de Frank Dux. E aí começaram os problemas.

O jornal encontrou enormes dificuldades para confirmar suas histórias. Registros militares contradiziam parte de sua biografia, especialistas em artes marciais questionavam a existência do torneio e até o famoso troféu apresentado como prova virou motivo de suspeita. Uma empresa de troféus da Califórnia disse ter produzido partes dele.

Dux sempre contestou as acusações e sustentou sua versão. Mas o ponto é outro: a história que ajudou a vender um dos filmes de luta mais famosos dos anos 80 nunca teve a comprovação sólida que o marketing sugeria.

E Van Damme virou o rosto daquele mito.

De repente, ele estava em todo lugar

Depois de Bloodsport, vieram Kickboxer, Duplo Impacto, Soldado Universal e uma sequência de filmes em que basicamente havia uma regra: em algum momento Jean-Claude Van Damme precisaria chutar alguém de uma maneira que uma pessoa normal precisaria de fisioterapia só de assistir.

Ele também deixou marca fora do cinema. A própria criação de Johnny Cage, de Mortal Kombat, nasceu de ideias desenvolvidas quando a Midway tentou fazer um jogo ligado a Van Damme. O acordo não aconteceu, mas o astro de cinema metido a lutador virou parte do DNA do personagem.

Em 1994 veio Timecop, seu maior sucesso como protagonista. O filme passou dos US$ 100 milhões mundialmente e colocou Van Damme em uma posição em que ele podia olhar para Hollywood e pensar: “Agora eu mando nisso aqui”.

E aparentemente ele pensou exatamente isso.

O telefonema que Van Damme nunca esqueceu

Anos depois, o próprio ator contou ao The Guardian uma história que parece roteiro de comédia, mas que ele admite ter acontecido.

A Universal queria fechar um acordo para três filmes. Segundo Van Damme, a proposta era de US$ 12 milhões por filme.

Doze milhões.

Por filme.

Nos anos 90.

A resposta dele? Queria US$ 20 milhões.

Por quê? Porque Jim Carrey estava recebendo algo nessa faixa e Van Damme considerava que também levava público aos cinemas.

O estúdio não comprou a ideia.

Van Damme contou que a ligação terminou e que, a partir dali, passou a sentir que estava fora do grande jogo de Hollywood. Mais tarde, olhando para trás, chamou a própria atitude de ridícula.

Só que seria fácil demais colocar toda a queda da carreira naquele telefonema.

Porque nos bastidores havia um problema muito maior.

Hollywood já estava cansada do pacote completo

No auge, Van Damme vivia uma fase pesada de uso de cocaína. Ele próprio falou publicamente sobre a dependência e relatou consumo que teria chegado a cerca de 10 gramas por dia, com gastos enormes por semana.

Durante as filmagens de Street Fighter, o diretor Steven E. de Souza contou anos depois que o comportamento do ator se tornou imprevisível. Van Damme dizia estar doente, atrasava ou simplesmente não aparecia, obrigando a produção a reorganizar cenas.

E aqui está um detalhe que muita gente esquece: em cinema, um ator que não aparece não atrasa apenas a própria cena. Tem equipe, locação, equipamento, figurino, iluminação e centenas de pessoas esperando. Cada hora custa dinheiro.

Então aquele astro que valia milhões de dólares nas bilheterias também começava a representar milhões de dólares em risco.

Some isso ao pedido de cachê gigantesco, aos problemas pessoais e à mudança do próprio cinema de ação, e a conta começa a fechar.

Não foi só arrogância: havia também um problema que ele ainda tentava entender

No fim dos anos 90, Van Damme começou a falar abertamente sobre outro ponto da própria vida. Em entrevistas da época, relatou ter recebido diagnóstico relacionado a transtorno bipolar — na linguagem usada naquele período, ele falava em quadro maníaco-depressivo — e passou a usar medicação estabilizadora de humor.

Ele descreveu a sensação de que, depois do tratamento, o barulho mental finalmente havia diminuído.

Isso não apaga os problemas que causou, nem transforma cada comportamento ruim em sintoma médico. Mas ajuda a entender por que a história real é mais complicada do que aquela versão simples de “o astro ficou arrogante e Hollywood o expulsou”.

Havia ego? O próprio Van Damme admite.

Havia drogas? Ele admite.

Havia decisões profissionais ruins? Também.

Mas havia uma pessoa tentando entender o que estava acontecendo com ela no meio de uma fama absurda.

E então apareceu o filme em que Van Damme resolveu parar de fingir que era Van Damme

Em 2008 surgiu JCVD. E esse talvez seja o capítulo mais interessante de toda a história.

No filme, Jean-Claude Van Damme interpreta uma versão decadente de si mesmo: um ator cansado, com problemas financeiros, carreira em queda e tentando lidar com os destroços da própria fama.

Em determinado momento, ele praticamente abandona a trama e fala diretamente para a câmera durante vários minutos.

Não é chute.

Não é espacate.

Não é explosão.

É Van Damme falando de fama, drogas, fracassos e arrependimento.

A atuação surpreendeu a crítica. O Los Angeles Times destacou justamente o monólogo como um dos momentos mais impressionantes de sua carreira, e outros críticos passaram a olhar para aquele velho astro de filmes de pancadaria de um jeito diferente.

No fim, a história de Van Damme é melhor do que qualquer filme dele

É curioso.

O filme que o transformou em estrela cresceu em cima de uma história apresentada como real e que depois passou a ser duramente contestada.

Depois, o próprio Van Damme começou a viver uma versão inflada do personagem que Hollywood havia criado para ele: o lutador imbatível, o astro milionário, o sujeito que podia exigir qualquer coisa.

Só que Hollywood gosta muito de construir mitos.

E gosta mais ainda de substituí-los quando eles ficam caros demais.

Van Damme chegou ao topo, recusou uma fortuna porque queria uma fortuna ainda maior, enfrentou dependência química, problemas pessoais e uma indústria que já começava a mudar de gosto.

Mas ele fez uma coisa que poucos astros daquela geração conseguiram fazer: sobreviveu ao próprio personagem.

Talvez por isso JCVD seja tão interessante. O homem que ficou famoso fingindo ser invencível finalmente apareceu diante da câmera para dizer, em essência, que nunca foi.


Fontes consultadas: entrevista de Jean-Claude Van Damme ao The Guardian sobre o acordo de US$ 12 milhões e sua fase de dependência química; reportagem do Los Angeles Times de 1988 sobre as alegações de Frank Dux; entrevistas de Van Damme no fim dos anos 1990 sobre drogas e saúde mental; relatos do diretor Steven E. de Souza sobre os bastidores de Street Fighter; críticas do Los Angeles Times e do Washington Post sobre JCVD.

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