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Cinema

Você provavelmente entendeu errado o final de A.I.: os “ETs” não são ETs — e o sentimentalismo era de Kubrick

O final de A.I. foi mal interpretado por anos: os seres não são ETs e o tom sentimental vinha de Kubrick. Entenda a história.

Ilustração editorial inspirada em A.I. Inteligência Artificial, com um menino androide diante de uma cidade congelada e máquinas avançadas
Imagem ilustrativa produzida para esta análise de A.I. – Inteligência Artificial.

Existem filmes que envelhecem. E existem filmes que esperam o mundo envelhecer até finalmente alcançá-los.

A.I. – Inteligência Artificial, lançado em 2001, pertence à segunda categoria.

Na época, muita gente saiu do cinema com a mesma sensação: “O filme estava indo para um lugar sombrio, estranho, quase cruel… e aí Spielberg resolveu colocar um final sentimental”.

É uma leitura compreensível.

Mas tem um problema.

Ela está errada.

Porque aquela parte que durante anos foi apontada como o “final açucarado de Spielberg” era justamente uma das partes mais ligadas à visão de Stanley Kubrick.

E tem mais: aqueles seres que aparecem no futuro, depois que David fica preso por dois mil anos, não são extraterrestres.

São máquinas.

Descendentes evoluídos dos próprios mecas.

E quando você entende isso, o final muda completamente de significado.

Antes de Spielberg, A.I. era um projeto de Kubrick

A origem de A.I. está no conto Super-Toys Last All Summer Long, de Brian Aldiss, publicado no fim dos anos 1960.

A história já carregava o coração do que viria depois: uma sociedade tecnologicamente avançada, emocionalmente vazia e um menino artificial tentando compreender por que sua mãe não consegue amá-lo da maneira que ele deseja.

Stanley Kubrick se interessou pelo material e passou décadas tentando transformá-lo em filme.

Décadas.

Não foi um projeto que ele pegou numa terça-feira e abandonou na quinta.

Kubrick desenvolveu ideias, tratamentos, desenhos de produção e trabalhou com diferentes roteiristas. O Arquivo Stanley Kubrick registra que o desenvolvimento e a pré-produção atravessaram décadas, com vários escritores envolvidos.

O problema é que Kubrick esbarrava em duas coisas.

Primeiro: ele nunca parecia completamente satisfeito com o roteiro.

Segundo: durante muito tempo acreditou que a tecnologia ainda não era boa o bastante para criar David de forma convincente.

A ironia é maravilhosa.

O sujeito ficou esperando efeitos especiais avançarem o suficiente para criar um menino artificial… e no fim Haley Joel Osment resolveu o problema simplesmente atuando muito bem.

Kubrick achava que esse filme tinha mais a cara de Spielberg

Aqui começa uma das partes mais bonitas da história.

Stanley Kubrick e Steven Spielberg eram amigos e conversavam sobre o projeto havia anos. Kubrick chegou à conclusão de que aquela história talvez combinasse mais com a sensibilidade de Spielberg do que com a dele próprio.

Não porque Kubrick quisesse transformar A.I. em um filme “fofinho”.

Mas porque, por baixo de toda a tecnologia, existe uma história quase infantil: um menino que quer ser amado pela mãe.

É Pinóquio.

Só que Pinóquio com processadores, mudanças climáticas, cidades submersas e uma crise existencial que provavelmente destruiria sua tarde de domingo.

Kubrick morreu em março de 1999.

Depois disso, Spielberg assumiu o projeto e tentou trabalhar a partir do enorme material que o amigo havia deixado.

Isso transforma A.I. em uma coisa muito incomum.

Não é exatamente um filme de Kubrick.

Também não é simplesmente um filme de Spielberg.

É quase uma conversa entre os dois.

A parte mais “Spielberg” do filme era de Kubrick

Quando o filme estreou, muita crítica foi na direção mais óbvia possível.

As partes frias, estranhas e cruéis seriam de Kubrick.

As partes doces, sentimentais e emocionais seriam de Spielberg.

Spielberg passou anos dizendo que era praticamente o contrário.

Ele explicou que vários elementos considerados “sentimentais” — incluindo Teddy e os minutos finais — já estavam ligados à visão desenvolvida por Kubrick.

Enquanto isso, algumas das passagens mais pesadas do filme, como a Flesh Fair, foram desenvolvidas por Spielberg.

Pois é.

O diretor de E.T. ajudou a criar uma arena em que pessoas comemoram enquanto robôs conscientes são destruídos.

E o diretor de Laranja Mecânica queria o ursinho.

Às vezes a reputação que criamos para um artista acaba atrapalhando a maneira como enxergamos aquilo que ele realmente fez.

E não: aqueles seres do final não são alienígenas

Esse talvez seja o erro mais comum sobre A.I..

David passa cerca de dois mil anos preso sob o gelo, diante da Fada Azul.

Quando finalmente é encontrado, aparecem seres altos, esguios, quase fantasmagóricos.

A primeira reação de muita gente foi:

“Ah. ETs.”

Mas Spielberg esclareceu isso ainda na época do lançamento.

Não são extraterrestres.

São robôs extremamente avançados.

A humanidade desapareceu.

As máquinas continuaram.

E David se tornou uma espécie de fóssil vivo porque foi construído diretamente por seres humanos.

Agora pense no que isso significa.

O último ser que ainda lembra de nós

Para aquelas máquinas do futuro, David não é apenas um robozinho velho encontrado congelado.

Ele é uma ligação direta com seus criadores.

Com uma espécie extinta.

Conosco.

É aí que o final deixa de ser apenas “David querendo ver a mãe mais uma vez”.

Aquilo se transforma em outra coisa.

As máquinas querem compreender os humanos.

E o que David guarda dos humanos?

Não são guerras.

Não são cidades.

Não são invenções.

Ele guarda uma memória emocional.

Uma mãe.

Um carinho.

Um dia perfeito que ele passou a existência inteira tentando recuperar.

E isso é tremendamente triste.

Talvez o filme nunca tenha sido sobre inteligência artificial

A pergunta aparente de A.I. é bem óbvia:

Uma máquina pode amar?

Mas o filme vai empurrando essa pergunta para outro lado.

Se David demonstra medo, apego, esperança, ciúme e desejo… o que exatamente falta para considerarmos aquilo real?

O corpo?

Carne?

Sangue?

E se a máquina sofre, mas nós decidimos que o sofrimento não vale porque ela foi fabricada?

A Flesh Fair torna essa pergunta desconfortável justamente porque os humanos precisam transformar os mecas em coisas para conseguir destruí-los sem culpa.

Até David aparecer.

Porque David parece uma criança.

E de repente a plateia consegue enxergar sofrimento onde minutos antes enxergava apenas sucata.

E então temos Teddy, que quase ninguém percebe

Teddy parece só o ursinho simpático do filme.

Mas observe o que ele faz.

Ele acompanha David.

Ajuda David.

Protege David.

Guarda uma mecha do cabelo de Monica.

E permanece ao lado dele durante dois mil anos.

David passa o filme inteiro tentando provar que consegue amar.

Enquanto isso, Teddy simplesmente ama.

Sem discurso.

Sem Fada Azul.

Sem promessa de virar um menino de verdade.

Talvez seja justamente por isso que ele seja uma das peças mais interessantes da história.

O verdadeiro conto de fadas começa depois que os humanos acabam

Quando as máquinas do futuro encontram David, elas encontram também nossa memória.

E fazem algo muito parecido com aquilo que nós fazemos desde sempre.

Contam histórias.

Reconstroem o passado.

Tentam entender aqueles que vieram antes.

Transformam David quase em uma lenda.

E é por isso que a estrutura de conto de fadas faz tanto sentido.

A.I. começa como ficção científica.

Mas termina como um mito contado por uma espécie que veio depois da nossa.

Uma espécie que olha para a humanidade como nós olhamos para civilizações desaparecidas.

E talvez seja exatamente por isso que o filme ficou mais atual

Quando Brian Aldiss escreveu sua história, a preocupação era uma sociedade superpovoada e solitária.

Hoje a parte da superpopulação parece menos próxima.

Mas a solidão?

Essa ficou assustadoramente atual.

Vivemos cercados por gente e ainda assim passamos cada vez mais tempo conversando através de telas.

Criamos relações com influenciadores que não nos conhecem.

Nos apegamos a personagens.

E agora começamos a conversar diariamente com inteligências artificiais capazes de responder com uma naturalidade que, em 2001, parecia pura ficção científica.

Isso não significa que os chatbots atuais sejam David.

Não são.

Mas significa que a pergunta do filme deixou de parecer tão distante.

Se um sistema artificial um dia conseguir simular perfeitamente afeto, sofrimento, esperança e desejo, em que momento nós vamos começar a tratá-lo como algo além de uma ferramenta?

E talvez a pergunta mais desconfortável seja a inversa:

o que isso vai revelar sobre nós?

Talvez A.I. tenha sido julgado cedo demais

Roger Ebert criticou o final quando o filme estreou em 2001.

Dez anos depois, reviu o longa e mudou de ideia a ponto de incluí-lo em sua série de grandes filmes.

Isso diz bastante.

A.I. – Inteligência Artificial é estranho.

É irregular.

É longo.

E certamente não é um filme perfeito.

Mas talvez parte do incômodo sempre tenha vindo justamente do fato de que ele não entrega uma resposta fácil.

David é real?

Seu amor é real?

Se foi programado, importa?

Se nós também somos moldados por biologia, memória, trauma e condicionamento, onde exatamente está a linha?

E então chegamos de volta ao final.

Humanidade extinta.

Máquinas olhando para aquilo que restou de nós.

E tudo o que encontram é um menino artificial que passou a existência inteira querendo ser amado.

Talvez Kubrick e Spielberg não estivessem tentando mostrar como as máquinas poderiam se tornar humanas.

Talvez estivessem perguntando o que existe nos humanos que valeria a pena uma máquina aprender.


Fontes consultadas: Arquivo Stanley Kubrick, entrevista de Steven Spielberg sobre A.I. e o desenvolvimento do projeto, material oficial de Brian Aldiss sobre Super-Toys Last All Summer Long, além das críticas originais e retrospectivas de Roger Ebert.

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