Roraima dá 71% a Flávio e deixa PT sem eleitos: a fronteira com a Venezuela ajuda a explicar?
Roraima deu 71,06% a Flávio Bolsonaro e deixou o PT sem cadeiras. Entenda como a fronteira com a Venezuela entra nessa história.

Roraima virou um daqueles pontos do mapa eleitoral brasileiro que fazem qualquer um parar e olhar duas vezes. Não foi uma vitória apertada, nem uma pequena vantagem regional. No primeiro turno de 2026, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 231.322 votos, ou 71,06% dos votos válidos no estado. Lula (PT) ficou com 74.420 votos, 22,86%.
Setenta e um por cento. É uma diferença grande demais para ser tratada como detalhe.
E o mais curioso é que o fenômeno não ficou restrito à disputa presidencial. Quando a gente desce para governador, Senado, Câmara e Assembleia Legislativa, aparece um padrão muito claro: o PT e a federação liderada pelo partido praticamente desapareceram da representação eleita em Roraima.
Não foi só na eleição para presidente
Arthur Henrique (PL) venceu o governo de Roraima já no primeiro turno, com cerca de 69% dos votos válidos. Para o Senado, foram eleitos Nicoletti (PL) e Teresa Surita (MDB).
Na Câmara dos Deputados, as oito cadeiras de Roraima ficaram distribuídas entre Republicanos, Podemos, PL e União Brasil. Segundo a Agência Câmara, o Republicanos elegeu três deputados, o Podemos dois, a Federação União-PP dois e o PL um. A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, não conquistou cadeira.
Um dos casos mais simbólicos foi o de Joenia Wapichana (PT), ex-presidente da Funai. Ela recebeu 9.998 votos e terminou como a 15ª candidata mais votada para deputada federal no estado, mas sua federação somou 16.620 votos — número insuficiente para conquistar uma vaga pelo sistema proporcional.
Na disputa estadual, a federação encabeçada pelo PT somou 8.196 votos e também ficou sem cadeira na Assembleia Legislativa.
Aqui vale uma correção importante para não transformar um resultado impressionante em uma frase maior do que os números permitem: isso não significa que absolutamente toda a esquerda ficou fora da Assembleia. O PDT, por exemplo, elegeu representantes estaduais. O dado realmente fora da curva é o desempenho do PT e de sua federação.
E por que Roraima é tão diferente?
A explicação defendida por muitos comentaristas conservadores é direta: Roraima está na fronteira com a Venezuela e convive há anos, de maneira concreta, com as consequências da crise venezuelana.
E aqui existe um fato objetivo que não depende de opinião política. Foi justamente por causa do fluxo intenso de venezuelanos em situação de vulnerabilidade que o governo federal criou, em 2018, a Operação Acolhida. Boa Vista e, principalmente, Pacaraima passaram a fazer parte da linha de frente brasileira para recepção, triagem, documentação, abrigo e interiorização de migrantes e refugiados.
Em outras palavras: para boa parte do Brasil, Venezuela é uma discussão de televisão, rede social ou campanha eleitoral. Para Roraima, é geografia. A fronteira está ali. As pessoas chegam por ali. Os serviços públicos sentem o impacto ali.
Mesmo em 2026, com redução no fluxo registrada no início do ano, a estrutura da Operação Acolhida continuou funcionando em Boa Vista e Pacaraima. Em agosto, o Ministério da Justiça ainda acompanhava presencialmente as estruturas de recepção e proteção a migrantes e refugiados no estado.
Maduro caiu, mas a memória da crise ficou
O contexto venezuelano mudou radicalmente em janeiro de 2026, quando uma operação militar dos Estados Unidos capturou Nicolás Maduro e o levou para território norte-americano para responder a acusações criminais. O episódio abriu uma nova fase política no país vizinho.
Mas uma coisa é derrubar um governo; outra completamente diferente é reconstruir uma economia, instituições e condições de vida deterioradas durante anos. E é justamente aí que entra a experiência particular de Roraima: a crise venezuelana não chegou ao estado como uma teoria ideológica. Ela chegou atravessando a fronteira.
A Venezuela explica os 71%?
A resposta mais cuidadosa é: ela provavelmente faz parte da explicação, mas os números da eleição, sozinhos, não provam a causa.
Seria simples demais olhar o resultado e dizer que cada eleitor de Roraima votou pensando exclusivamente em Venezuela, socialismo ou comunismo. Eleições também passam por força dos candidatos locais, estrutura partidária, alianças, religião, segurança pública, economia e histórico político do estado.
Mas também seria estranho fingir que a localização de Roraima não importa. Poucos estados brasileiros tiveram contato tão direto, prolongado e visível com uma crise humanitária originada no país vizinho.
É nesse ponto que a eleição roraimense se torna especialmente interessante. O estado não apenas deu uma das maiores votações do país ao candidato bolsonarista à Presidência. Também repetiu a preferência pela direita em diferentes níveis da disputa e deixou o PT sem representação eleita nas principais chapas proporcionais.
Um laboratório político na fronteira norte
Roraima tem população pequena quando comparada aos grandes colégios eleitorais brasileiros, portanto seu peso numérico na eleição nacional é limitado. Mas, politicamente, o estado funciona quase como um laboratório.
Ali, temas que no restante do país aparecem como debate abstrato — Venezuela, imigração, crise econômica do país vizinho e rejeição a governos associados à esquerda latino-americana — fazem parte do cotidiano há anos.
Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja simplesmente “por que o PT perdeu em Roraima?”. A pergunta é outra: por que a rejeição foi tão consistente, da Presidência às disputas proporcionais?
Os 71,06% dados a Flávio Bolsonaro são o número mais chamativo. Mas o quadro completo — governo estadual, Senado, Câmara dos Deputados e desempenho da federação do PT — mostra que não foi um acidente isolado de uma única urna ou de uma única candidatura.
Roraima mandou um recado político bastante claro em 2026. A fronteira com a Venezuela não é suficiente para explicar tudo. Mas ignorá-la também seria ignorar uma das características mais particulares do estado.
Fontes consultadas: dados eleitorais do TSE repercutidos pela Folha BV e pela Agência Câmara de Notícias; informações da Operação Acolhida divulgadas pelos ministérios da Justiça, Defesa e Desenvolvimento Social; Reuters sobre a operação dos Estados Unidos na Venezuela em janeiro de 2026.
